quarta-feira, 13 de maio de 2015

Antes de partir


Antes de partir

Um dia tu vais ficar sem mim e eu vou ficar sem ti. Um dia nós vamos embora e nada mais vai restar para além das lembranças que tu e eu criámos. É engraçado como apesar de sermos tão diferentes, nós acreditamos que se esta vida nos vai marcando, nós também podemos marcar a vida, à nossa maneira.

 Se a vida acabasse amanhã já teria valido tanto a pena, porque fazer valer a pena é algo que apenas se prende com as pessoas que amamos e com as pessoas que nos amam. Que nos amam apesar de tudo, apesar das visíveis imperfeições que nos saltam da pele muitas vezes em forma de cicatrizes ou feridas mal curadas.

Privar com pessoas que muitas vezes parecem mensageiros, é dos maiores privilégios que podemos ter. Quando percebes que tudo isto não passa de uma curta jornada, entendes que as mágoas só te atrasam o passo, os pequenos desentendimentos fazem parte mas não podem ser a grande parte de tudo isto. Porque na realidade somos feitos da mesma matéria falível e profundamente frágil, que mais tarde ou mais cedo, apenas se esfumaça no incrível mistério que será a próxima viagem.

Na realidade nem todos vão gostar de nós e nós também não vamos ser capazes de gostar de toda a gente, mesmo que se queira gostar, o sentimento nunca nasce por obrigação. Vamos viver bem com isso porque é natural que assim seja. Vamos esquecer e dedicar o tempo apenas a quem importa para nós. Muitas vezes o ser humano tem a estúpida tendência de fazer precisamente o contrário, dedicar tempo a quem não tem ou não devia ter relevância na sua vida.

Antes de um de nós partir, deixa-me dizer-te as coisas assim cruas para que as leves contigo, para onde quer que vás. Deixa-me dizer-te que embora nem sempre saibas porque na realidade eu nunca te dou a entender, tu és uma inspiração de vida. 

Não vás sem que te diga que foi contigo que aprendi a ser lutadora, tu ensinaste-me que só se desiste no fim e que por mais que o cenário seja trágico, o caminho é sempre para a frente. Não vás sem que te diga que a tua calma é a minha herança, esse jeito de viver desprendido como quem não se importa, mas na realidade se vai importando devagar. Não vás sem que te diga que foste a melhor coisa que me aconteceu. Não vás sem que te diga que existem realmente amizades eternas e que elas contêm tanta história que quase não nos cabe na memória. São os de sempre e para sempre que se destacam numa existência sempre tão efémera.

Não vás sem que te agradeça que me escutes, que me agarres, que me faças rir. Porque rir é das melhores coisas que fazemos juntos. Rimos de nós próprios, dos nossos enganos, dos tiros que demos no pé. E continuamos a rir porque sabemos que somos imperfeitos e que voltaremos a cometer o mesmo erro, melhor ainda… não nos importamos.

Não vás sem que te diga que se não fosses tu talvez as coisas não corressem tão bem. Porque tu acalmas a minha revolta e mostras-me a razão das coisas. Tu mostras-me o lado bom da vida quando eu não o consigo ver. Não vás sem que te mostre que talvez o para sempre não exista em todos os casos, nós sabemos. No entanto tu e eu fizemos parte em algum momento de um quadro perfeito que guardamos e recordamos, vamos recordar até ao fim.

Não vás sem que te explique que és um ser humano fantástico e que a tua presença muitas vezes muda o estado de espírito das pessoas. Porque ser boa influência não é para qualquer um e o carisma não se compra, não se faz existir. Ou se tem ou não se tem.

Não vou sem te dizer obrigado por existires e tornares os meus dias banais em dias produtivos, em dias aproveitados, sentidos, vividos.

Porque nós sabemos que é assim que a vida tem de ser, intensa, verdadeira, partilhada, autêntica…

A vida neste aspecto é o que queiramos que ela seja, as pessoas tem e ser amadas da forma mais correcta possível, tu tens de dizer o quanto gostas e aprecias a companhia, tu tens de mostrar que alguma coisa mudou apenas por um cruzar de caminho, tu podes melhorar o dia de alguém, tu podes mudar positivamente a vida de alguém e tudo isso só pode acontecer… antes de alguém partir.

Aos meus,

IRamos 2015



segunda-feira, 11 de maio de 2015

My kind of feminism


My kind of feminism  

"As meninas começam a falar e ficam em pé mais cedo que os meninos, porque as ervas daninhas sempre crescem mais rapidamente". (Martinho Lutero)

A crónica de hoje pode gerar alguma controvérsia e alguma polémica também. Falar de feminismo nos dias de hoje é falar de um assunto complexo e exaustivo. Na minha opinião para além dos evidentes extremismos que se mesclam com a essência do movimento, ainda se confunde, feminismo, com outros termos como por exemplo machismo e misandria. 

De modo a esclarecer esta questão importa antes de mais dizer que machismo é o conceito que exalta e superioriza as capacidades dos elementos do sexo masculino, ou seja se quisermos encontrar o antónimo de machismo podemos falar em femismo (ideia da superioridade da mulher em relação ao homem), mas não em feminismo.

A misandria é o termo que designa o ódio, desprezo ou preconceito para com os elementos do sexo masculino, enquanto o seu contrário é misoginia. Mas misandria não tem ou pelo menos não deveria estar relacionado com a ideia que o feminismo pretende transmitir.

O feminismo é uma ideologia que defende a igualdade (social, politica e económica), entre homens e mulheres. 

A primeira vez que as mulheres se apresentam na história como sujeito político, foi na Revolução Francesa com início em 1789, as mulheres ambicionavam uma participação activa na vida politica, social e económica. Até meados de 1800, esta foi a sua principal mobilização. Mais concretamente esta luta deu às mulheres o direito ao voto, direito ao trabalho e à educação.

A década de 1960 é particularmente importante para o movimento. Nos EUA, o movimento hippie vem propor uma nova forma de vida: “paz e amor”, Na Europa o “ Maio de 68” em Paris, rompe a ordem académica imposta durante séculos. Foram também estes os primeiros tempos em que foi lançada a pílula anticoncepcional. Na música vivia-se a revolução dos Beatles e dos Rolling Stones. O movimento feminista ganha força em 1970, com dois temas centrais o divórcio e o aborto.

É por causa destas mulheres que hoje conhecemos a sociedade como ela é. Esta luta envolveu muitos sacrifícios, lutas, greves de fome e até mortes. Em 1913, na corridas de cavalo em Derby, a feminista Emily Davison atirou-se para a frente do cavalo do rei, morrendo em prol da sua causa.

Na actualidade a pergunta que se impõe é se ainda existe sentido no movimento feminista? Esta é a resposta que causa polémica. Na minha opinião enquanto houver disparidades é claro que faz sentido a existência de um movimento que defenda exactamente a igualdade.  É necessário rever o conceito? Ok, posso concordar com isso. Mas não podemos fechar os olhos a certos aspectos que estão presentes na nossa sociedade, estarei eu errada? Devemos ignorar que pessoas de géneros diferentes na mesma função laboral ganhem salários diferentes? Devemos ignorar que os cargos de administração tanto no sector privado com no público seja esmagadoramente ocupado por homens, quando a percentagem de mulheres licenciadas em Portugal é bastante superior à percentagem de licenciados do sexo masculino? Se ainda há lutas para o feminismo então estas são as próximas batalhas.

Agora também não vamos ser hipócritas! Porque algumas mulheres não usam a liberdade que o movimento lhe deu como forma de igualdade, mas sim como forma de encostar o homem à parede, como se eles fossem os culpados de tudo. E não são… Hoje em dia atrevo-me a dizer que as maiores machistas da sociedade portuguesa são exactamente as mulheres. E são exactamente essas que mancham toda uma história.

Como é que alguém pode querer igualdade e achar que é o homem que deve pagar a conta (sempre), como é que alguém pode querer igualdade se precisa de um homem para lhe fazer quase tudo. Como é que uma mulher fala de igualdade se compactua com servidão doméstica, sexual e social em pleno sexo XXI? Como é que uma mulher fala mal do machismo se é a primeira a criticar outras mulheres que vivem sozinhas, pagam as suas contas e eventualmente tem a vida sexual que querem. Como é possível dizer mal dos homens se são as próprias mulheres que estão sempre a apontar o dedo umas às outras.

Em relação aos homens é claro que também existem erros. Erram os homens que consideram a mulher inferior, mercadoria, objecto sexual ou serva. Isso é uma burrice de alguns homens, mas não significa que todos eles pensem assim. Ou seja é claro que o feminismo radical e o seu consequente ódio a todos os elementos do sexo masculino com o objectivo claro de cercar as mulheres de protecções, novas leis e privilégios é um tremendo exagero.

Em 2015 os direitos iguais não passam de utopia na maior parte do mundo. Culpa nossa! Um pensamento retrógrado camuflado pela falsa ideia que somos todos muito modernos. Culpa nossa!

Não seria altura de pararem as guerras entre sexos? De se parar com estereótipos e moralismos e cada um cuidar da sua vida? Não seria altura das pessoas más serem julgadas pelas incapacidades que têm e não pelo gênero a que pertencem? 

Sim. É óbvio que somos todos iguais. Os mesmos direitos, os mesmos deveres e as mesmas capacidades. Não deveria ser este o pensamento?

 

 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O confronto entre o que desejamos e o que a vida nos oferece


Entro no mesmo café todos os dias pelas sete da manhã, às sete da manhã ninguém diria que o humor está em grande forma, mas naquele café por norma isso acontece. Aprendi a ser bem-humorada com este género de pessoas, pessoas comuns que muito provavelmente teriam tantos motivos para fechar a cara e não sorrir, mas por norma isso não acontece. Gosto que me contagiem com essa alegria de ser. Num tempo difícil onde as portas se fecham, onde a existência é dura na maior parte dos dias, pessoas capazes de aceitar a vida e mesmo assim serem felizes, são um exemplo dos caraças.

Já se percebeu que dificilmente virão melhores dias, isso não é uma questão de ter esperança ou não, é uma questão de vivermos o melhor possível, sem andar sempre de cabeça baixa a reclamar de tudo. Há problemas sobre os quais me custa escrever e esses são os mais verdadeiros. Mau é uma doença, mau é fome, mau é desemprego, rua, frio, morte. Viver com pouco não é mau. Viver com pouco e ser feliz apesar disso, é supremo.

Posso escrever sobre isto porque vivi muitos anos extremamente revoltada com tudo. Eu não percebia porque é que se eu trabalhava todos os dias para ter as coisas, para fazer as coisas, elas não aconteciam. Hoje percebo que não está tudo nas minhas mãos, que não há muito caminho por onde ir. A continuar assim eu nunca vou poder realizar todas as coisas que qualquer ser ambiciona. Não neste país, não neste tempo.

Não considerem isto que vos escrevo uma fraqueza, porque é claro que eu mais que ninguém defendo a luta por aquilo que queremos, mas não nos podemos martirizar por não chegar tão longe com um dia nos imaginamos. Há certos dias em que chego ao meu sótão no último andar desta selva, depois de um dia de trabalho e penso “Inês é humanamente impossível fazeres mais”. Se me convenço disto, vivo melhor porque vivo sem pressão, sem tanta expectativa e sem tanta dor também.

Lutem, claro que sim! Lutem todos dias por um amanhã melhor. Temos de tentar as vezes que forem precisas, temos de nos cumprir, mas vivam também. Aceitem o que a vida oferece, celebrem a amizade, amem, sintam e acima de tudo dêem valor a todas as pequenas conquistas. Sofram e aprendam com isso, levantem-se e vivam mais intensamente ainda.

Eu não quero deixar passar a vida, nem quero que ela seja apenas um confronto sangrento entre o que eu desejo ter e aquilo que consigo ter. Não quero sofrer por coisas pequenas, pessoas pequenas, desejos fúteis e sonhos irreais. Quero ser feliz…ser feliz sem grandes motivos e sem depender de ninguém, só pode ser a mais autêntica forma de felicidade.
"É uma arte viver com a dor … mistura a luz com as cinzas."
Eddie Vedder






quarta-feira, 29 de abril de 2015

Antes de te aproximares de mim


Todas a pessoas com quem vamos estabelecendo ligações ao longo do tempo levam com eles um pouco de nós e deixam em nós um pouco da sua essência, nem sempre é algo bom. É impossível viver sem magoar ninguém, isso faria de nós super-homens. Contudo é possível fazer melhor, melhorar a nossa forma de ser com os outros deveria ser a nossa principal preocupação.

Porque aprendi à minha custa o quanto dói estar rodeado de pessoas e sentir-se só, porque aprendi que vale muito mais estar sozinho do que mal acompanhado, porque aprendi que são mais que muitas as pessoas que te vão usar, enganar e aproveitar a tua boa vontade para uso exclusivo dos seus interesses. Porque aprendi à minha custa que todos falhamos, mas uns muito mais que outros.

Antes de te aproximares de mim, analisa bem se temos alguma coisa para acrescentar um ao outro. Não há tempo a perder e eu deixei de ter paciência para aparências, conversas da boca para fora, jantares de ocasião que ficam bem no facebook, cenas de uma noite, mesas repletas de pessoas que fingem ter a vida perfeita, pessoas vazias que só me esgotam o corpo e a alma. Há um momento na vida que apenas nos interessam pessoas autênticas e essas são muito poucas hoje em dia.

Antes de te aproximares de mim, percebe que não há meios-termos no meu conceito de amor, ou amo tudo ou eu não amo nada. Percebe que as pessoas a quem me dedico são realmente o meu mundo porque eu não faço favor de me dar com ninguém. Esquece o “amor de vez em quando”, “o de vez em quando preciso de ti” ou o “de vez em quando somos amigos”, isso comigo não existe. Ou somos sempre e para tudo ou não somos nada.

Antes de te aproximares de mim é bom que saibas que eu não sou de constantes demonstrações de afecto ou de grandes carências. Estarei sempre que realmente for preciso, mas não estarei a todos os minutos. Sabe também que eu vou ao fim do mundo para defender quem gosto e por norma, não me esqueço de ti, em circunstância alguma. E apesar de aparentemente ausente eu não deixo de te amar, em circunstância alguma.

Antes de te aproximares de mim percebe que dificilmente vou ter alguma atitude preconceituosa ou normativa do teu comportamento, mas podes ter a certeza que vou dizer na tua cara que estás errado sempre que achar que estás. Sabe também que o maior problema da traição não é perdoar é voltar a confiar.

Antes de te aproximares de mim entende que do que eu gosto na amizade é da partilha e não tenho vergonha nenhuma de partilhar o que sou, sem artifícios. Tenho dias de grande alegria, cometo erros, tenho dias de agonia. Também não me dou com pessoas cheias de si. Ninguém é alegre sempre e o amor entre as pessoas devia servir para todas as alturas.

O mais importante na vida são as pessoas, nada como elas para transformar esta passagem num caminho mais bonito. Os “mais-menos” da minha vida não servem para nada a não ser para me dar a falsa ideia de preenchimento. Quando tudo à minha volta é “mais ou menos”, sou apenas um vazio. Aprendo com os erros e deixo entrar quem vem por bem. Rodeio-me de quem está por bem. Vivo com esses, choro, riu, ama-os da maneira mais correcta possível, são esses que merecem.
“Se os amigos são tão importantes na nossa vida como é que temos tão pouca vida para os (verdadeiros) amigos?”


quinta-feira, 23 de abril de 2015

A última carta


Talvez a maturidade seja aceitar aquilo que não podemos mudar e viver bem seja viver em paz com o que somos. A felicidade está no deixar que as guerras se apaziguem por si, deixar de lado as lutas inúteis e se eu tenho entrado em guerras perdidas.

Oiço tantas vezes as pessoas dizerem que só nos devemos arrepender do que não fizemos e que se não tentarmos, nunca saberemos. Usamos essas máximas com desculpas perfeitas para fazer o que nos apetecer, afinal só se vive uma vez. Mas não é bem assim…Muitas vezes as nossas loucuras deixam marcas profundas e um arrependimento que vai durar para sempre.

Há loucuras e há demências. Contigo eu deixei de ser uma louca satisfeita, para passar a viver na insanidade. Tu fizeste-me doente e eu deixei. São aberrações como tu que fazem as pessoas felizes ficarem feridas para o resto do tempo. E o tempo é tão curto.

Mas não, a culpa não é tua, a culpa das tuas monstruosidades é de pessoas como eu. Porque pessoas como eu acreditam sempre nas promessas quebradas que pessoas inúteis como tu erguem sem pensar. Porque pessoas como eu dão o melhor que têm. Dão tanto a tão pouco. E se eu dei.

Não é amor, já não é nada que se compare a isso. Eu aceito todos os dias um pouco mais que cometi um erro e que nunca vou poder mudar isso. Mas ainda dói… se dói. Dói na alma rasgada por ti. Uma ferida que já nada tem de sentimento magoado. Uma ferida de revolta é mais grave.

Como se me queimasse a garganta sempre que passas por mim com esse ar de quem domina o mundo. Logo tu que não vales nada. És a prova que grandes mulheres também se iludem e também choram. E se choram.

Eu cheguei até aqui com a plena consciência que tu foste o meu maior equívoco. Mas o que importa agora é como é que se vai daqui para lá. Porque o amor é o meu património e tu nunca o conseguirás destruir. Pode ser tarde demais para escrever esta carta…mas não é tarde demais para mim.

Para todas as mulheres que tiveram o azar de se cruzar com um filho da puta.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Pausa para a crónica - No 23 sem medo


Desço as escadas e acendo mais um cigarro, são sete horas e esta rua ainda está nua. Gosto da cidade despida de multidão, só o silêncio permite que oiça os meus tumultos. Lembro-me de ti e do teu olhar tão cheio.
Em passos lentos, caminho para a paragem onde me habituei a esperar pela alma e pelo 23 da carris também. Enquanto esperamos, eu a calma damos as mãos, com se precisássemos apenas uma da outra… nada mais.
A coragem faz-se demorar, ela sempre gostou de ser a última a chegar. Tenho tempo para pensar e criar o espírito para mais um dia perfeito. Há-de ser. Se formos juntos é mais fácil?
Chegou o 23, ninguém nos diz bom-dia. O que se consome mais nesta cidade é solidão. Cada um perdido no seu mundo, olhares vazios de pessoas com enfados matinais. Não me conduza por aí, esse caminho, eu já conheço. Reflicto.
Se vens comigo, então eu vou sem medo. Esta manhã tu que encorajas o meu caminho.
Lembro-me de ti e do teu olhar tão cheio.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Pausa para Crónica - Grow up.. but don't give up

Hoje é o último dia dos meus 26 anos. É estranho pensar assim, é estranho pensar num tempo que não volta nunca mais.
 
Não tenho nada contra o envelhecimento, acho que os anos passam e a maturidade traz consigo coisas boas, uma serenidade rara até agora, uma forma menos inflamada de ser, contudo nunca fiz um aniversário tão sentido e consciente da fugacidade de tudo. Consciente que a juventude nos foge.

É inevitável olhar para o tempo que passou e não fazer perguntas. Será que fui tudo o que podia ter sido? A velha questão que me perturba desde sempre. Será que me vou cumprir?

Analisar as coisas não as muda, mas eu preciso de escrever isto, nem que seja para lavar a alma, só mais uma vez. Eu não sei se podia ter sido muito mais até aqui, mas eu sei que fui tudo o que quis ser.

Não reclamarei de nada hoje, porque estes foram os melhores anos que eu podia ter tido. Muita persistência conjugada com uma porção de sorte, as pessoas certas e as pessoas erradas na hora exacta, hora exacta de aprender.Talvez eu não precisasse de ver tanta coisa nem de aguentar tanto, para tirar estas lições da vida, mas foi este o método de ensino que ela me deu. Na maior parte das vezes… resultou.

Acredito que tudo acontece com um propósito. As pessoas na estrada, as pedras, as quedas, os sonhos que ficaram por cumprir, as lições, os gestos que nos enchem o coração e até as mágoas que nos provocam são o preenchimento da história. São o pintar de uma tela em branco.

No final, o mais importante nesta caminhada vão ser as gargalhadas que deste, a felicidade que partilhaste, o bem que fizeste e o que te fizeram. Nisto eu fui abençoada com seres grandiosos. Eu queira ou não e apesar de todas as minhas manias de independência, tem existido sempre uma mão para me ajudar, alguém para me ouvir, alguém para me compreender. Dos pais aos irmãos. Da família à família que eu escolhi. A todos eles um obrigado por existirem.

Estou aqui para dizer que tenho orgulho em mim, na mulher que me tornei. Gosto de me ser. Assim um pouco só, meio alheada do comum, meio estranha. Com esta essência radical cada vez mais forte e nem por isso perdendo o amor e sobretudo a esperança no amor. Desengane-se quem acha que quando eu falo em amor falo em romantismo, quando eu digo esperança no amor é mesma coisa que estar dizer esperança no respeito das pessoas umas pelas outras. É respeito que falta. "Amor", as pessoas têm para dar e vender. (Eu sabia que não ia conseguir escrever o texto sem mandar uma boca!)

Então se tem de ser, vamos lá fazer 27 anos. Agora estou pronta. Pronta para essas novas lutas, pronta para continuar a aprender todos os dias, para provavelmente entristecer momentaneamente mais 300 vezes, mas também para viver esta serenidade que aprendeu a morar em mim, nestes últimos anos.

Bem-vinda fase adulta.

 


 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pausa para a poesia - Extinto


Há qualquer coisa de trágico em ti, eu sinto

Tão cinzento como é em mim e com todas essas peças sagradas.

Sempre tudo tão sentido, magoado. Malditas amarras.

Nesse olhar secreto que trazes e que eu pressinto

No meu olhar incompreendido, na procura que nunca se desgasta

Na essência que não se descobre, na distância que nos afasta

Há qualquer coisa de mágico, eu não minto.

No teu existir e no meu afecto que eu julgara extinto.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Pausa para a crónica - Fora do catálogo


Importa-me olhar para mim, olhar para dentro. Não só olhar, como ver as reais inquietações de pessoas como eu, de pessoas como tu. Explorar a verdadeira ideia de felicidade e realização. Falar de temas gerais e adaptá-los á pessoa que sou hoje. Gostava que este texto fosse uma ode ao Ser Humano. A todos os sonhadores, sensíveis mas ao mesmo tempo, seres de garra, capazes, sólidos, fora do catálogo.
Sempre me considerei uma pessoa aparentemente forte. Aparentemente, porque ninguém sabe a força que tem até ao momento em que é preciso tê-la. Eu não sabia o que como iria reagir em situações realmente difíceis, agora tenho uma noção. Comprovo que sou um osso duro de roer e isso conforta-me. “A vida tem Outonos”, a alegria é uma passagem que acontece assim como a tristeza, há momentos em que nada joga a nosso favor e para viver uma vida plena é preciso aprender a sobreviver a isso. Uma coisa é ser sensível, outra muito diferente é ser uma pessoa fraca. A tua atitude para a vida define seriamente a maneira como as coisas acontecem á tua volta.
A felicidade não pode ser considerada um destino, até mesmo porque ninguém pode garantir o que esse estado significa, esse lugar não é igual para todos e nada garante que apesar de teres chegado a um determinado patamar, não existam outros, 10 vezes melhores. Não é possível criar uma fórmula mágica e universal que te fará atingir o nirvana. É impraticável… o segredo está em cada um e na aventura que cada um quer viver.
Na filosofia grega, Eudaoimonia significa em termos genéricos felicidade, em termos mais específicos e segundo Aristóteles, a realização plena do próprio ser é a condição necessária para chegar a felicidade. Cada pessoa tem um percurso, uma maneira de se realizar. A felicidade está no caminho, na estrada, na forma como caminhas, como achas graça a pequenas coisas, como te entregas ao mínimo que fazes, como vais lutando e realizando sonhos, na forma como enfrentas e combates problemas e pessoas também.
Sempre me senti assim estranha, eu não tenho sítio porque passo a minha vida à procura dele e como diria António Variações “só estou bem aonde não estou”. Vivi tanto tempo com medo de não me encaixar e percebo agora que não há problema nenhum nisso. As pessoas gostam de mim assim, meio deslocada, meio á procura de sabe-se lá o quê e é bom perceber isso.
Obviamente há coisas que terás que mudar ou adaptar para conseguires viver em sociedade e eu também tenho dessas. Mas a tua essência, aquilo que és, tem de ser aceite e compreendido, se não for, temos pena! Ninguém é obrigado a gostar de ninguém.
Não querendo ser prepotente, mas na realidade eu sou uma das diferentes, tendo em conta o individualismo e egocentrismo que a sociedade enfrenta, as vaidades surrealistas, a maneira com toda a gente ignora a morte de certos princípios essenciais como o respeito, a humildade, o amor.
O modo como vivem excessivamente fixados no próprio umbigo, nos bens que têm, na aparência que dão e até a performance sexual passa à frente de merdas fundamentais. Desculpem-me, eu não sou santa nenhuma mas deste catálogo… eu não faço parte.
O desejo de liberdade é comum a muita gente. Ser livre, na minha opinião, implica viver não justificando muito, implica estar fora de uma gaiola, chamada sociedade mas respeitando sempre quem quer ficar dentro dela. Existem muitos pássaros que não querem sair da gaiola mas também existem outros que uma vez fora desse espaço físico confortável, se perdem. Uma coisa é ser independente, outra é ser livre. É das coisas mais complicadas de se fazer.
Citar o romantismo é vago. Eu não sou romântica, sou apenas pelo amor. Lacan disse “ Amar, é dar o que não se tem”, e é só isto que eu acredito, dar o que vai além de si mesmo, sem esperar que isso nos venha a preencher. A sociedade “ama” mal, ama porque o outro é um meio de satisfazer os seus desejos mas isso não é amor, isso para mim é só aparência, egoísmo, medo da solidão, falta de algo. Lamento mas neste campo eu não tenho elixir, se as coisas não forem como eu acredito… então elas nunca vão ser.
Se tivesse que escolher uma frase para terminar este texto que é no fundo uma reflexão sobre mim eu diria:
"Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!"
Nietzsche

segunda-feira, 30 de março de 2015

Pausa para a poesia - Apaga a alma com calma

Que desassossego te causaria eu dizer que errei?
Aconteceu assim em todas as guerras que inventei
Aconteceu assim em todos os afectos que magoei.
Na verdade, eu nem nunca tentei…           
Desculpa se não te impressionei.
Conheces aquela dor mesquinha?
A que provocaste e eu não sabia que tinha?
Que perturbação te causaria eu dizer que te odiei?
Tu, que arrasaste todas as partes do coração que te dei.
Tu, que dilaceraste os sonhos que eu sonhei.
Conheces aquela dor emocional de existir?
Aquela que quase me fez desistir...
Calma. Apaga a alma com calma.
Que inquietação te causaria eu dizer que alcancei?
Que desordem te causaria eu dizer que amanhã já não estarei?
Na verdade, eu nem nunca me esgotei.
Desculpa… se não te esperei.