domingo, 6 de julho de 2014

Pausa para autobiografia - Inês por Inês - O TEXTO

Isto é um resumo.. e agora como é que se transforma um texto de 816 palavras em 350?? que merdinha...

Bora lá praticar a arte da síntese! ate já! 


O meu caminho na estrada da vida começou, numa tarde solarenga (segundo me contam), no dia 10 de Abril do ano de 1988. Eram mais precisamente 15h30, quando nasci, na antiga maternidade, entretanto fechada, em Tomar. Sou filha de um alentejano e de uma mulher do Ribatejo. Os meus pais escolheram viver numa pequena aldeia, chamada Vila Nova, no distrito de Santarém.

Há pequenos traços na minha memória que indicam que tive uma infância feliz. Uma avó presente nos primeiros anos, que substituía na perfeição a ausência dos meus pais. Lembro-me de dormir com ela, e da protecção que isso significava para mim, nunca mais tive essa sensação, até hoje. Lembro-me do pão com tuli-creme que ela me fazia, e levava rigorosamente à mesma hora, todos os dias, ao recreio da escola, lembro-me de fazer cara feia, quando ela me dizia, “Hoje é com manteiga, a avó deixou acabar o tuli-creme”.

Lembro-me, já mais velha, das brincadeiras e às vezes zaragatas com os meninos da aldeia. Os meninos da aldeia, que são hoje os meus melhores amigos. Acho que toda gente deve ter tocado às campainhas da rua toda e fugir, quem não fez isso?

Lembro-me da chegada do meu irmão, e do instinto de protecção que nasceu em mim, apenas com oito anos. Até hoje o vejo como o meu bebé.

Nunca fui uma adolescente, problemática, aliás sempre fui demasiado “mansa”. Nunca quis fumar, como os meus amigos insistiam que o fizesse, a droga foi um mundo que me passou ao lado, embora bem perto. Tive os meus namoros e saídas á noite, mas tudo bem regrado. Talvez por isso sempre mereci a confiança dos meus pais. Aos 16 anos já passava férias com amigos, e foi com eles que cresci, que comecei a ver o mundo, foi também com eles que aprendi aquilo que queria para mim e aquilo que definitivamente não queria.

Sempre fui boa aluna, não propriamente a mais inteligente da turma, mas sem dúvida a mais esforçada. O 10º ano de escolaridade marca a minha vida, para sempre. Na descoberta de mim mesma, do gosto pela escrita, da formação da minha personalidade. A minha mãe passou de me chamar “ alentejana com o teu pai” para “ mula brava”, acho que ela queria dizer alguma coisa.
Nesta altura comecei a sentir, que Tomar era pequena demais para mim. Inconscientemente,  sabia, que ia sair dali, ver outras coisas, aprender a ser só, que era uma coisa que eu não fazia a mínima ideia do que era.

Entrei na universidade em 2006, em Lisboa. E acho que foi neste período de três anos que se dá o verdadeiro pulo, torno-me adulta. Fiz grandes amizades, grandes descobertas, grandes aprendizagens. Lisboa na altura era um mundo novo, por descobrir.

Terminado o curso, no tempo previsto, e numa conjuntura económica difícil, eu sabia que não era possível ter manias de doutor! Não queria voltar para Tomar, por isso agarrei-me ao que havia, trabalhei numa loja de roupa, em pleno Chiado. Seis meses, numa escola como eu nunca tinha tido, dez mulheres num espaço, durante oito horas, sete dias por semana, dá para viver lições que ficam para a vida.

Tive sorte, sempre tive, surgiu uma oportunidade de trabalho, com condições melhores e eu aproveitei-a, aliás continuo a aproveitar.

No meio disto, passei por várias mudanças, vivi numa casa com 9 pessoas, partilhei casa com uma amiga, e agora vivo sozinha. Um orgulho enorme e uma sensação de liberdade que poucos jovens da minha idade têm o privilégio de sentir.

Realizei nos últimos anos, grandes sonhos, um deles, ver o mundo. Viajar é a melhor sensação que tenho. Criei um blog sobre viagens e o sonho da minha vida é deixar a secretária e viver da escrita de viagens. É isso que me faz feliz.

Acho que nem todos nascemos para o mesmo, para ser sincera, a vida típica não me emociona. Não quero um casamento, talvez queira um amor. Não sei se quero ser mãe, não sei se me apetece ser igual a toda a gente.

Dizem que não podemos imaginar o futuro, devemos viver o presente, respeito as opiniões de toda gente, mas para mim quem pensa assim, esta acomodado e não se dá ao trabalho de sonhar, por puro medo da frustração.

Não sei como vai ser o resto que me falta viver. Mas eu sonho..

Sonho com meus futuros sobrinhos, os meus pais velhinhos, os finais felizes dos meus amigos, o meu nome na capa de um livro que atravessa os Estados Unidos, uma casinha na praia deserta e eu velhinha nessa casa, a escrever.


Daqui a 40 anos, ao ler isto, tudo pode ter sido diferente. Posso até já nem ter tempo para ler estas palavras, mas eu sei que também existe a secreta possibilidade de acabar de ler esta autobiografia, com lágrimas nos olhos e a dizer baixinho…. e foi assim. 

#PIECES_OF_ME