terça-feira, 3 de junho de 2014

Pausa para a crónica - Na pele da saudade

Faz hoje, tantos dias, que conto a tua ausência, como é excêntrica a vida na sua singela aparência. Como é doloroso perder para sempre, quem se vai e não volta mais.

Quando alguém parte, fica a dor dolorida no peito de um homem, fica o sorriso glorioso de um filme que foi passando e chegou ao fim. 

As feridas que se abriram na pele de um sonhador, serão as cicatrizes de uma lição, que sangrou, até aprender.

Onde é que se sente a ausência? Sente-se no coração, na chuva miudinha na janela, nos olhos molhados, na pele em fogo.

Na pele dele sempre escura e fria, pairava a minha pele branca, em que nascia a esperança de mais um dia. A pele dele, quente como as estações, tão mágica, que às vezes arrepiava, com o vento ameno das nossas emoções.

A estranha rugosidade da pele das mãos sábias que ela tinha, que passavam suavemente na minha cara de menina. A pele que eu visto depois disso, não é bonita. Tenho as marcas todas nos joelhos, de quem caiu por não saber e às vezes de quem caiu por querer.

Recordo sempre a pele macia do meu bebé, que saudade da pele do bebé, do cheiro imaculado que o bebé trazia. Sem marcas vorazes na casca tenra.

Recordo ainda as linhas traçadas na pele de minha mãe e a pele suja de terra, suor e de sol que o meu pai tinha, como quem trabalhou, mais do que podia.

Saudade da pele nua, nessa pele que era tua. Meu amor, quantas saudades de estar na pele, dessa que é a tua verdade, tão simples, tão crua.

Quanto desejo, afinal, de voltar a sentir na pele velha e cansada, a presença de quem partiu, cintilando de novo, como quem nunca se destruiu.

A cor da pele ou o aspecto que ela ganha, de nada importa, nesta manhã de outono, aqui ao pé dos ciprestes verdes. Não importa, quando a pele desse alguém é a única que nos toca.